Como tornar um MVP um produto desejável

“Produzir e vender”. Esse é o modelo mental criado pela revolução industrial, ainda utilizado por grandes organizações tradicionais. Mas isso está perdendo espaço para uma nova visão: o design de serviço centrado no usuário.

A Revolução Industrial foi um período de produção de produtos em massa, tornando-os mais baratos e acessíveis, principalmente para as pessoas que migraram do campo para os centros urbanos ganhando melhores condições de vida.

A Revolução Industrial iniciou-se por volta de 1900, com o lema de redução máxima dos custos de produção, até entrar na fase de controle de qualidade com o Sistema Toyota de Produção (TPS), que começou a atender uma classe de consumidores mais exigentes (década de 30 a 50).

Para driblar a concorrência, as organizações começaram a buscar a notoriedade dos produtos junto aos consumidores. Vencia quem gritava mais alto. E as agências de publicidade faziam — e ainda fazem — bem este trabalho (década de 50 a 80).

A partir da Era da Informação (década de 1980), isto começou a mudar. A internet tornou fácil e rápido o acesso à informação. As mídias tradicionais, como a televisão, rádio e jornal, deixaram de ser o principal e mais forte influenciador de compra dos consumidores da nova economia. A tomada de decisão de compra de um produto é, atualmente, muito mais forte quando vem de recomendações de pessoas conhecidas e comentários online de pessoas que usaram o produto.

Prensa móvel de Gutenberg

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A importância do surgimento da internet é comparada com o advento da prensa móvel de Gutenberg, que contribuiu com o crescimento da economia. Através dela, mapas e contratos puderam ser impressos, permitindo que novos mercados pudessem ser explorados.

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Apesar de todas estas mudanças que surgiram — e surgem — ao longo da jornada humana, a grande maioria das organizações, continuam a criar produtos da mesma forma. Com altos investimentos e buscando colocar no mercado um produto “o mais próximo da perfeição”.

Este modelo faz com que uma grande quantidade de tempo, dinheiro e pessoas (os especialistas) sejam utilizados. Neste novo mundo de rápidas mudanças, esta forma de trabalho não é mais eficiente. Quando o produto fica pronto, o timing de mercado já passou.

Mas como, então, criar produtos de forma ágil e eficiente nos dias atuais para atender os consumidores da nova economia? A resposta são os Produtos Mínimos Viáveis (MVP — Minimum Viable Product, em Inglês).

Um MVP é o mínimo que um produto precisa para ser lançado no mercado. Diferente de um protótipo de experimentação, que é feito a partir de materiais de baixa fidelidade para testar a ideia inicial do produto (ou do serviço), podendo evoluir, por meio de ciclos de feedback, a um protótipo de alta fidelidade.

Há quem diga que um MVP é um protótipo. E, realmente, não deixa de ser, uma vez que ele é utilizado dentro do ciclo “construir, mensurar e aprender” da Lean Startup. A diferença é que um MVP deve ter a funcionalidade mínima para resolver um problema ou atender a uma necessidade.

Por meio do MVP, é possível testar a viabilidade do negócio, a aceitação do produto (ou serviços) e processos. Equipes multidisciplinares criam melhores MVPs. Pessoas técnicas e de negócio. Cada pessoa trazendo sua visão da perspectiva da sua função e experiências dentro da organização. São essas pessoas que construirão um olhar 360 graus para a criação do MVP.

Desde, a visão do que é o produto, passando pelo entendimento técnico e de negócio, até a priorização e o sequenciamento das funcionalidades para atender os perfis de usuários dentro das suas jornadas.

É aí que entram as metodologias para tornar as organizações ágeis nos tempos atuais. E uma delas é a Lean Inception, do livro “Direto ao Ponto” do Paulo Caroli.

Fonte: http://www.caroli.org/inception-o-que-quem-onde-quando-como/

A metodologia Lean Inception, por meio de atividades simples e eficientes, conduzem as equipes a pensar o que é e quais são as funcionalidades necessárias para produto que será construído. Ao final da Lean Inception, as funcionalidades sequenciadas indicam qual será a ordem dos MVPs que serão construídos.

De uma maneira geral, a Lean Inception alinha e indica o norte para a equipe do projeto, delimita o que o MVP é /não é, e o que faz/não faz. Traça os objetivos dos usuários (personas) dentro das suas jornadas e descreve as funcionalidades, nivelando-as e as sequenciando por nível técnico, negócio e UX (User Experience).

Um dos resultados da Lean Inception é o Canvas MVP, com o detalhamento do MVP e suas funcionalidades, trazendo um olhar integrado entre a Lean Startup e o Design Thinking.

Agora, imagine poder criar o MVP do produto com um mindset em serviços. Isto mesmo! Diferente da Era do “produzir e vender” mencionado no início deste post, hoje vivemos em uma economia cada vez mais compartilhada e colaborativa; o que faz com que o relacionamento seja mais importante do que a transação (compra e venda). Este é o mindset das startups que estão tirando o sono de grandes corporações tradicionais.

Serviços são relacionamentos e um bom relacionamento com o consumidor, faz com que ele fique engajado e recomende a empresa. Segundo uma pesquisa de confiança global de propaganda e mensagens de marca de 2015 da Nielsen Group, as recomendações de pessoas conhecidas são as mais efetivas em uma decisão de compra. Os anúncios de TV, que tradicionalmente são o meio de maior influência, estão em quinto lugar nesta classificação (em 2013, os anúncios de TV estavam em 3ᵒ lugar).

Fonte: https://www.nielsen.com/content/dam/nielsenglobal/apac/docs/reports/2015/nielsen-global-trust-in-advertising-report-september-2015.pdf

Pensando pelas lentes de serviço, um produto é um objeto (ou um avatar) de um serviço sendo prestado. O smartphone, por exemplo, é um prestador de vários serviços. Será que alguém pagaria um alto preço pelo seu smartphonese ele somente tivesse o serviço de fazer e receber ligações? Acredito que não. O valor não está no produto em si (no caso o smartphone físico), mas nos serviços que por meio dele são prestados.

Veja o exemplo da Whirlpool Corporation, que entrou na categoria de purificadores de água em 2003: com um serviço de assinatura que contempla instalação, manutenção preventiva a cada seis meses, reparo, visitas técnicas, troca do refil (filtro) e logística reversa. O serviço é entregar o que o consumidor quer. Ou seja, beber água filtrada e não o filtro de água?

Fonte: https://www.whirlpool.com.br/2015/09/atendimento-rapido-e-pratico-aos-clientes-brastemp/

Em suma, já não se encaixa mais, o simples “produzir e vender” produtos como se fazia antes da Era da Informação. O modelo mental dos consumidores é outro, diferente do que era há 38 anos. São consumidores empoderados, com voz ativa e conscientes. Querem se identificar com o propósito da marca e fazer parte do que é construído para eles.

Desta forma, é preciso sair da visão centrada no produto para a centrada no ser humano da lógica de serviço. E, junto a isto, combinar uma metodologia ágil como a Lean Inception para criar um MVP enraizado em funcionalidades desejáveis para as pessoas.

 Por Vinícius Nakamura

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